Hoje, consumir compulsivamente não é só um ato de luxo, e sim uma doença.
Cartões de crédito, cheques especiais, promoções. Todas as facilidades para adquirir produtos são disponibilizadas por um simples preenchimento de dados ou uma ligação. Consumir excessivamente é mais que um ato feito de vez em quando, para muitas pessoas é algo rotineiro e, também, problemático. Manoel Rodrigues-Neto, professor de psicologia do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB) e mestre em psicologia do consumidor, considera a compulsão por compras uma doença.
Entrar no shopping e sair com milhares de sacolas, que ao chegar em casa se transformam em motivo de desespero tem sido momentos enfrentados na vida de Ana[1]*. “Depressão gera vários transtornos. A questão da auto-estima no meu caso era muito baixa e me levou a ter transtorno bipolar compulsivo. Pra suprir isso eu comprava compulsivamente” afirma a jovem. Essa compulsão foi atestada como manifestação de um transtorno bipolar aliado à depressão. O professor complementa que “transtorno bipolar compulsivo é uma variação de humor, sem aparente explicação. Quando uma pessoa está em depressão pode descontar nas compras”.
Manoel Rodrigues aponta que o distúrbio é acompanhado por uma ansiedade que leva o indivíduo a ser menos racional e mais emocional. O professor, ainda, faz uma comparação, de que o consumismo se intensifica junto com o fluxo do capitalismo. Empresas, publicitários e órgãos governamentais se apropriam dessa lógica de mercado. “A partir do momento que você compreende as variáveis do comportamento do consumidor as empresas podem se adequar melhor aos interesses deles, assim como os órgãos [públicos] podem preparar melhor as leis para não enganar o consumidor”.
A jovem Ana afirma que gasta para suprir uma carência, uma necessidade de completar algo que considera vazio. Há 10 anos, ela diz que possui baixa auto-estima, e que o sentimento de êxtase que encontra nas compras lhe faz sentir melhor. “Quando acabava de comprar era um alívio, mas assim que chegava em casa era um horror, tinha um sentimento de culpa. Olhava para as sacolas e nada daquilo me satisfazia, já não tinha valor pra mim”. Quando a pessoa adquire uma roupa ela acredita que aquela calça ou a blusa nova vai lhe fazer ser mais aceita e mais bonita. Não importa o quanto vai gastar e muito menos como vai pagar, o importante é ter. A jovem diz que comprava muito e depois tinha “um sentimento de ‘meu Deus agora tenho que pagar as contas como eu faço?’ ” .
Ter uma marca ou um produto para apresentar é um fato apontado pela jovem como importante. O teórico de Karl Marx em seus estudos apresenta o conceito de fetiche da mercadoria, tal termo preconiza que o objeto adquire um simbolismo, que vai além do valor de uso, ou seja, da função do produto. A Indústria Cultural se apropria de armas publicitárias para criar o desejo. “A necessidade do consumidor leva o despertar dessa necessidade, seja pelo conforto, luxo ou praticidade”, afirma Rodrigues.
Com mestrado em comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora do curso de comunicação social do IESB, Luanda Schramm, aponta que há uma perda de identidade. “Hoje, a forma de identificação se dá pelo consumo. Existe um declínio do Estado Nação como categoria identitária preferencial”. Nesse caso Schramm aponta o valor cultural como influente, “pela mundialização da cultura as marcas foram convertidas em categorias identitárias. Assim você define quem você é pelo que você consome”.
De acordo com Rodrigues a pessoa compulsiva tem mania de compras. Independente do produto. Não interessa o produto e sim o hábito de comprar, o prazer. As conseqüências do comprar compulsivo além de financeiras são estendidas para o plano pessoal e do trabalho, o que gera dificuldades de relacionamento. “Os mais afetados são os parceiros ou quem convive diretamente com essas pessoas”, afirma o professor.
Portadores da compulsão chegam a quebrar barreiras morais para conseguir suprir seus desejos. “Faço muitas dívidas que não dou conta de pagar e tenho que recorrer à minha família. Isso gera muitos problemas. Problemas sérios de relacionamento”, afirma a jovem. Ela diz que passou dos limites quando usou todos os seus cartões de crédito, cheques e ainda pegou o cartão da sua minha irmã para uso próprio.
Por conviver intimamente com Ana, sua irmã Camila[2]* afirma que nunca esperou esse tipo de atitude da parte dela. “Na hora que eu me dei conta do roubo, fiquei sem saber o que fazer, pois era minha irmã”. Todos são afetados e entram em uma espécie de desespero, “logo de primeira tive um pouco de raiva, pois tudo aquilo era injusto comigo, mas depois o que senti foi pena. Eu entendi que aquela vontade era mais forte do que ela [Ana]. Foi aí que nossa família se reuniu para pensar em alguma forma de ajudá-la”.
Os familiares tomaram a decisão de levá-la pra uma clínica, pois além da compulsão pelas compras ela começou a tomar remédios para dormir. “Para fugir da realidade e esquecer das contas. Ao invés de pensar em como pagar, eu dormia o dia todo”, conta Ana. Por sua experiência, o professor de psicologia ressalta que a decisão de procurar um tratamento, na maioria das vezes, parte da família, pois o doente sente vergonha ou acha que não necessita. Em depoimento, Ana confirma que a decisão de interná-la foi dos pais, e que só depois tomou consciência que estava no “fundo do poço”.
O tratamento é importante e difícil, pois de acordo com Rodrigues o processo de conscientização pode ser demorado. Ele frisa que “primeiramente as pessoas devem se afastar do vício para depois, ir aos poucos, se adaptando ao problema. Aos poucos se aproximar de locais em que estaria exposta a tentação de comprar. A pessoa tem que aprender a lidar com a presença do problema”.
Apesar de ter se conscientizado Ana conta que “a princípio senti uma angustia muito grande de estar ali [clínica], passando por aquilo, era uma situação muito constrangedora para mim e para minha família, mas depois fui vendo que era necessário, o melhor a ser feito”. Com a ajuda de psicólogos, psiquiatras e enfermeiros, Ana, ainda, passa por tratamento com consultas e ajuda de remédios antidepressivos. O professor diz que, no tratamento, nem sempre se usa medicamentos. “É uma terapia através de conversas, sugestões, atividades, relaxamento ou sugestão de atividades saudáveis, como esportes”, declara.
Como o próprio professor de psicologia ressalta, curar um doente é um processo que pode ser longo. A jovem, que possui a compulsão por compras há algum tempo, não se sente completamente curada. “Acho que não faria as mesmas coisas, não na proporção que fiz, mas acho que eu ainda gastaria”, confessa Ana.
O senso comum pode atribuir à compulsão como um problema do sexo feminino. Mas a questão de gênero não está ligada ao desenvolvimento da doença. Segundo Rodrigues tal conclusão se deve pelo fato de que mulheres tem mais iniciativa em buscar ajuda e admitir possuir o problema. Outro ponto relevante é que essa compulsão em homens aparece, principalmente, em outros tipos de produtos como carros, eletrônicos, bens de consumo mais caros e que atribuem status.
Tanto Schramm quanto Rodrigues citam a questão cultural, como um dos vários fatores que podem desencadear a compulsão por compras. O professor diz que esses casos vem crescendo, uma vez que o seu diagnóstico é mais eficaz e, também, pelo aumento do poder aquisitivo e baixo custo de determinados produtos.
Uma ilustração dessa temática pode ser vista no filme “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”. A trama relata, justamente, os momentos de angústia e superação de uma garota que faz de tudo para ter a bolsa da moda ou aquela bota exclusiva. Alguns podem ver como uma simples comédia, mas esse comportamento não gera nenhum tipo de felicidade para quem o possui ou convive com ele e, é muito mais presente do que se imagina.


